Morre uma lenda: Pedro Pedrossian

Não sei de outro titulo adequado para que possamos colocar no titulo desta matéria, que este escriba tentará colocar no papel, ou, melhor, no Blog, sobre o governador Pedro Pedrossian, que nos deixou na madrugada desta terça-feira, dia 22 de Agosto, aos 89 anos, na cidade de Campo Grande, onde foi sepultado.

Pedro Pedrossian, ex-governador de Mato Grosso do Sul.

Dr. Pedro, como todos o chamavam, sem dúvida foi uma espécie de lenda da política, tanto do então Estado Uno, o Mato Grosso, como depois o Mato Grosso do Sul, que governou por duas vezes. Uma quando da deposição de Marcelo Miranda (antes foi decapitado politicamente o primeiro governador do MS, Harry Amorim Costa), isso em 1980, quando renunciou o cargo de senador para assumir pela primeira vez o governo do MS, nomeado pelo então presidente da República, General João Batista Figueiredo. Em 1990 voltou pelo voto popular a governar o Estado, permanecendo no poder até 1º de janeiro de 1995, quando assumiu Wilson Barbosa Martins, que hoje ainda vivo e com mais de 100 anos.

Mas a “Lenda Política” nasceu bem antes deste período em que governou Mato Grosso do Sul por duas vezes e uma vez o Mato Grosso. Nasceu em 13 de agosto de 1928, na cidade de Miranda, descendente de uma família Armênia, que depois se formou em engenharia civil pela Mackenzie de São Paulo, quando veio para Três Lagoas, como engenheiro residente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que começava em Bauru e findava em Corumbá, atravessando parte da Bolívia. Na Noroeste, Pedro Pedrossian se destacou.

Com a revolução militar de 31 de março de 1964 ainda incipiente, o então primeiro presidente da República, Umberto Castelo Branco, decidiu manter o calendário eleitoral, que estabelecia eleições diretas em todos os Estados, para os cargos de governador, isso em 1965.

Mato Grosso, sob o comando da UDN, que tinha como candidato a governador, Lúdio Martins Coêlho. O PSD, comandado por Felinto Muller, talvez um dos mais lúcidos políticos do então MT, senador da República e general da reserva, intimo de Castelo Branco, decidiram, em aliança com o PTB, lançar um nome desconhecido dos caciques políticos e até mesmo dos eleitores do Mato Grosso, um jovem engenheiro, com fama de bom administrador, Dr. Pedro Pedrossian.

A UDN, confiante na vitória, ao que parece não deu muita atenção, nem ao jovem candidato, muito menos prestou atenção nos novos “ventos” das mudanças que se operavam naquele instante na vida política do País, com o advento dos militares que se encontravam no poder. Resultado: Pedro Pedrossian deu uma verdadeira “coça” política nas velhas raposas udenistas e seus coligados, infringindo uma das derrotas mais marcantes da história política que já havia sido registrada no Mato Grosso, sagrando-se governador eleito de Mato Grosso, com 55,65% dos votos válidos ou 109.905 votos, enquanto Lúdio Coêlho, obteve 44,35%, ou 87.588 votos, sendo que as eleições foram realizadas no dia 3 de outubro de 1965.

Dr. Pedro de fato modificou toda a velha e arcaica política de Mato Grosso, que contou com o apoio decisivo dos militares. Fez um governo moderno, desenvolvimentista, como se dizia na época, construindo três universidades estaduais, uma em Cuiabá outra em Campo Grande e mais uma em Dourados, hoje todas transformadas em Universidades Federais. Além das inúmeras rodovias que construiu (de terra e cascalhadas, bem entendido).

Esse marco das três universidades, possibilitou que os Mato-Grossenses e depois os Sul-Mato-Grossenses, puderam estudar seus filhos no local onde nasceram. Antes, os jovens de famílias abastadas, estudavam nas universidades do Rio de Janeiro ou de São Paulo, já os menos afortunados, da classe média alta, obrigatoriamente se dirigiam a cidade de Lins (SP), ou Curitiba. Essa era nossa realidade antes do Dr. Pedro assumir o governo do então Mato Grosso.

Dr. Pedro deixou dezenas de novas lideranças políticas, tanto no Mato Grosso como em Mato Grosso do Sul, que aqui citaremos somente dois nomes dessa nova lavra: Marcelo Miranda, que foi Diretor Geral da Cemat e depois Dermat, no MT e, Levy Dias, ambos foram prefeitos de Campo Grande. Levy depois se elegeu senador e Marcelo Miranda governou o MS por duas vezes, uma indicado por Dr. Pedro e nomeado pelo presidente da República e depois de romperem relações políticas, Marcelo se elegeu pelo voto popular.

Outro detalhe, que poucos sabem, é que Pedro Pedrossian era contra a divisão do Estado. Em uma entrevista ao jornal Correio do Estado em 2013 (disponível na internet), disse com todas as letras que não concordava com a divisão, por saber que o futuro “estava no Norte de Mato Grosso”, como de fato hoje podemos constatar.

Mas, quando o General presidente, Ernesto Geisel o chamou e disse que faria a divisão do Estado e ele seria o seu primeiro governador, Dr. Pedro se animou e como seria lógico, ficou a favor da divisão do Estado.

Como em política não existe uma matemática correta, os três senadores do então Mato Grosso, foram a Geisel e disseram que o nome de Pedro Pedrossian não passaria no Senado, caso ele fosse o indicado. Para se vingar dos políticos do então Mato Grosso, Geisel nomeou para ser o primeiro governador do recém Estado criado, Harry Amorim Costa, um gaúcho, que era engenheiro e diretor do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), com sede no Rio de Janeiro. Vem daí as desavenças políticas do Mato Grosso do Sul, até hoje não sanadas por completo.

Eu, iniciando no jornalismo, isso no começo da década de 70, conheci pessoalmente Dr. Pedro muito superficialmente, apesar de estar residindo em Cuiabá nesta época, ou seja, no final de seu governo (1966/1971). Porem, todos nós da imprensa daquela época, tínhamos verdadeira adoração pelo Chefe da Casa Civil do governo do Dr. Pedro, senhor João Arinos, que nós o tratávamos como sendo o “bom velhinho”, dado ao carinho com que tratara todos nós da imprensa, indistintamente.

Sem dúvida Dr. Pedro realizou um grande governo, mas deixou um legado para seu futuro governante, Dr. José Manoel Fontanillas Fragelli, que simplesmente encontrou o MT “quebrado”. Só para citar um exemplo: cada Estado da Federação possui um banco, e aqui tínhamos o Bemat, que ninguém aceitava cheques do banco do Estado de Mato Grosso, nem mesmo para ser compensado em outra casa bancária. Uma passagem ocorrida conosco: Certa vez, a Casa Civil, comandada por João Arinos, mandou pagar uma fatura do jornal para nós. E, qual não foi nosso surpresa, ao sermos informados que o cheque seria pago, mas somente depois de três ou quatro dias de sua emissão, por não haver dinheiro em caixa e, isso dito pelo gerente do banco da capital, Cuiabá. Teríamos que entrar numa espécie de “fila”, para tentar receber o cheque depois desses dias. Um fato impensável nos dias de hoje, mas natural e corriqueiro no governo do Dr. Pedro.

Certa vez conversando com um engenheiro do Dermat, na cidade de Diamantino (MT), hospedado no mesmo hotel deste engenheiro, que tinha verdadeira adoração por Pedrossian, confidenciou que certa vez Dr. Pedro os chamou, depois de fazerem algumas queixas, dizendo mais ou menos o seguinte: “Fazer as coisas com dinheiro é fácil. Agora sem dinheiro e com as realizações que estamos fazendo, isso que eu quero de vocês”.

O “Homem de Miranda”, música de Renato Teixeira em homenagem ao ex-governador de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Dr. Pedro Pedrossian, e uma de suas obras em Nova Andradina, o reservatório de água da Sanesul, em forma de taça, assim como a construção da Rodoviária, ponte sobre o rio Ivinhema entre tantas outras, executadas tanto quando governador de Mato Grosso como depois nas duas vezes em que governou o MS.

Um fato político marcante, registrado por nós do Jornal D’oeste, foi uma das histórias mais comentadas da época, de uma das brigas entre Fragelli e Pedrossiam, que ocorrera em São Paulo, quando da inauguração da representação do MT na capital paulistas. O governo de José Fragelli, havia adquirido um prédio próprio para a representação do Estado na famosa Rua Augusta. Por acaso eu estava na capital de São Paulo, junto com o saudoso ex-prefeito de Nova Andradina, Alcides Menezes de Faria e participamos da inauguração. Que na verdade seria uma espécie de “pano de fundo”, para que os caciques da política mato-grossense, se “acertassem”, aparassem as arestas, para indicarem de comum acordo, um nome para suceder José Fragelli, que seria indicado pelo presidente da República. Tanto eu como o senhor Alcides, não soubemos do “entrevero” que ocorreu no local do encontro, a portas fechadas. Somente depois de vários dias, já aqui em Nova Andradina, que ficamos sabendo que naquele dia Fragellli e Pedrossian, teriam saído “nos tapas”, depois de uma insinuação do Dr. Pedro, contra o governo de José Fragelli. Sangue quente, Dr. Fragelli teria partido para a “ignorância”, a as possíveis alianças que poderiam ter nascido daquele encontro fracassaram por completo. Um fato histórico, que somente o Correio do Estado, de Campo Grande, registrou.

Dr. Pedro era isso. Um homem sonhador e idealizador como poucos. Basta citar o Parque dos Poderes em Campo Grande, que os Campo-Grandenses tanto criticaram, até mesmo este escriba, de como um governador do Estado poderia realizar tamanha obra no “meio do mato”.

Hoje o Parque dos Poderes, se tornou uma referencia nacional e até mundial, justamente por ter sido projetada no “meio do mato”.

Fica aqui o registrado desta nossa singela homenagem ao “Homem de Miranda”, inspirador de toda uma geração de Mato-Grossenses e de Sul-Mato-Grossenses.

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