Das coisas que vi e vivi: memórias

Recentemente, escrevi um artigo sobre as coisas que vi e ouvi na minha infância, na cidade de Campo Grande (MS), entre o fim dos 1960 e início dos anos 1970. Agora, darei um pequeno salto no tempo, para falar da minha adolescência, passada em Nova Andradina (MS), onde cheguei em 10 de janeiro de 1974, quinze anos recém completados, para morar e trabalhar com meu irmão mais velho, Pedro, editor do “Jornal D’Oeste”.

Morávamos numa pequena casa, no primeiro residencial de casas populares (Cohab) da cidade. Trabalhava o dia todo no jornal, onde desempenhava múltiplas tarefas, desde a composição (à “quente”, feita por uma velha linotipo), até a distribuição dos exemplares nas ruas. Dinheiro? Só “vales” nos fins de semana, que raramente aproveitava direito, pois era o período que mais trabalhávamos, pois o jornal, semanário, circulava às segundas-feiras.

Dureza à parte, foi um tempo maravilhoso, um mundo que não mais existe. Violência urbana? Só me lembro de um assassinato (passional) em quatro anos. Violência no campo? Nunca ouvi falar naquela região, em pleno sertão de Mato Grosso, então uno. Drogas? Para mim, era igual perna de cobra ou cabeça de bacalhau: ouvi dizer que existia, mas nunca vi. Quando o trabalho permitia, nos fins de semana, bom mesmo era ir com os amigos Cláudio, Luís, Mário e Valdir ao boteco mais frequentado da cidade, o “Shalako”, cujo nome fora copiado de um “far-west” dos anos 1960.

Entre uma cerveja e outra, a curtição da garotada era ouvir as baladinhas da moda no som ambiente do boteco e ficar paquerando, de longe, as meninas mais bonitas da cidade, as “mineiras”, filhas dos empresários e políticos mais importantes de Nova Andradina. No “Shalako”, também eram frequentes as disputas para saber quem conseguia ingerir a maior quantidade de caipirinhas: o “Pídio” (Elpídio) ou o “Sonera”? A disputa, normalmente, terminava empatada: ambos acabavam caindo, um para cada lado…! Infelizmente, tais figuras faleceram precocemente.

Por volta das 22hs, o programa ficava ainda melhor quando tinha baile no salão paroquial. Bem, aí começava o drama pra quem não sabia dançar direito e, como este escriba, não tinha coragem para tirar as meninas mais bonitas para dançar. Como os outros amigos, eu tinha a minha garota preferida, objeto de intensa paixão juvenil: Maria Beatriz, a Bia, a filha mais bonita do prefeito da cidade. O baile rolava noite adentro e…cadê a coragem para tirá-la pra dançar? Pois é… não tinha! O jeito era ir pra casa e sonhar com aquela que povoava meus melhores devaneios juvenis.

Nas tardes de sábado ou domingo, programa legal era ir pegar uns lambaris (que era o máximo que o “equipamento” de pesca permitia) nos córregos e rios das redondezas. Mas o bom mesmo era ir tomar banho na represa da fazenda Baile, da família Moura Andrade, onde podíamos ver as garotas em trajes de banho. Novamente, a cena se repetia: perto dos olhos, mas longe da realidade que a nossa coragem juvenil permitia!

Da turma de amigos, o único que já tinha chegado a fase adulta era o Valdir Nascimento (já falecido). Ele representava, para os outros adolescentes, aquele ideal de homem bem-sucedido: tinha mais de 20 anos, carro próprio (uma Brasília cor de abóbora, pode?), e “moral” suficiente pra chegar e conversar em pé de igualdade com as tais “mineirinhas” – de longe, as mais bonitas, chiques e moderninhas da cidade. Os demais, só de longe, “abicorando” – como se diz no linguajar paraense das personagens da última novela da Rede Globo.

Bem, na vida tudo tem um fim: quando cheguei aos 19 anos (uau!), achei que era hora de tomar outros rumos e voltei para Campo Grande, que se preparava para ser a nova capital do recém-criado Mato Grosso do Sul. Toquei a vida pra frente, fiz de tudo um pouco e (acho) cheguei a maturidade. Mas ficaram as lembranças de uma adolescência repleta de aventuras pueris, amores juvenis e amizades que (felizmente) duram até hoje. Graças à Deus!

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